Invenções Democráticas são maneiras criativas e solidárias de desenvolver autonomia e cooperação. Mais…

Seminário Mapeamento – Autoformação Pinheiros

Invenções democráticas

Conforme as palavras de Paul Singer, “as Invenções Democráticas constituem a junção de vários movimentos surgidos em setores distintos e que, depois de evoluírem, cada um a seu modo, descobriram que tinham princípios comuns, o que abre a possibilidade de que tenham efeitos sobre a sociedade que sejam complementares. Esses movimentos são: a educação democrática, a economia solidária, a justiça restaurativa, a psicopatologia para a saúde pública e a filosofia espinosana”. Conforme David Calderoni, podemos defini-las como “maneiras criativas e solidárias de desenvolver autonomia e cooperação”, o que significa que os movimentos citados não são os únicos que podem reivindicar essa denominação, cabendo perguntar:

  • Quantas invenções democráticas já existem?
  • Quantas estão sendo criadas?
  • Quantas surgirão?
  • Como podem se potencializar mutuamente?
  • Que intercâmbios são possíveis?

Definições dos movimentos que fundaram o Grupo Invenções Democráticas:

O movimento da psicopatologia para a saúde pública consiste no esforço contínuo de investigação e cura do que se contrapõe ao desenvolvimento da trama psicossocial do cuidado de si e do semelhante, trama que se apóia essencialmente no intercâmbio solidário de acolhimento, escuta, curiosidade, compreensão, intenção reparatória, generosidade, ajuda mútua, prazer, encantamento e reflexão. Objetivando a democratização da alegria, propõe como estratégias metodológicas diagnósticos psicossociais participativos, oficinas do medo e dos sonhos e praticáveis de direitos psíquicos (pensar, imaginar e comunicar). O texto integral desta proposta encontra-se neste arquivo.

A Justiça Restaurativa responde pelo direito ao reconhecimento social da própria história e ao acesso a reparações jurídicas centradas não na punição e sim na compreensão e na superação das causas da violência obtidas no processo de recomposição de laços sociais em torno do ofensor e do ofendido.

A Economia Solidária responde pelo direito ao trabalho autônomo associado e autogestionário, não subordinado e não alienado; realiza-se em formas de organizar atividades produtivas, comerciais e financeiras onde ninguém que é dono deixa de trabalhar e ninguém que trabalha deixa de ser dono, todos tendo o mesmo direito de decisão sobre o empreendimento solidário, independentemente da contribuição financeira de cada um.

A Educação Democrática responde pelo direito à instrução e à formação centradas no estímulo e no exercício do desejo de conhecer e ensinar e na consideração dos educandos e dos educadores como agentes essenciais de decisão quanto aos temas e às regras de convivência relativas ao processo de aprendizagem.

Segundo Helena Singer, a Educação Democrática tem três princípios. O primeiro é a autogestão. As pessoas que participam de uma experiência de Educação Democrática são responsáveis por ela. O segundo é o prazer do conhecimento. Acredita-se que o conhecimento traz alegria, prazer, e por isso as pessoas se envolvem com ele, não sendo necessárias punições ou disciplinas. E o terceiro é que não há hierarquia no conhecimento. O conhecimento científico, o conhecimento acadêmico, o conhecimento comunitário, o conhecimento tradicional, o conhecimento religioso, todos os conhecimentos são valorizados, respeitados e crescem justamente no seu contato.

A Filosofia Espinosana oferece fundamento ontológico, lógico, ético e político para a interpretação conjunta das relações solidárias entre corpo e mente, afeto e razão, homem e natureza, indivíduo e comunidade, direito e poder, necessidade e liberdade, apoiada nas seguintes concepções:

  • afeto e razão aumentam ou diminuem sua potência de agir de modo correlativo e conjunto;
  • mente e corpo são modos de uma mesma substância (Deus, ou seja, a Natureza);
  • o homem não é contrário nem contraditório à Natureza, porque é um modo dela;
  • é possível compreendê-los numa ciência do singular que considere cada ser pelos atos, afetos e ideias que apenas este mesmo ser pode unicamente realizar;
  • cada coisa singular se constitui como comunidade de partes, de modo que indivíduo e comunidade são internos um ao outro;
  • o direito e o poder se identificam porque se entende que potência e ato coincidem no esforço de cada coisa para perseverar na existência;
  • a liberdade de cada coisa singular consiste em tomar parte do todo segundo a necessidade de sua própria natureza singular e por isso liberdade e necessidade identificam-se como expressões da potência de cada coisa singular.

Tais concepções contrastam, entre outras:

  • com a tradição aristotélica, para a qual potência e ato ocorrem em tempos distintos e só é possível uma ciência do universal onde o que cada ser tem de único é considerado um acidente não-científico;
  • com a tradição cartesiana, para a qual, sendo a mente e o corpo duas substâncias distintas, quando o afeto é ativo, a razão é passiva; e quando a razão é ativa, o afeto é passivo.

Definições de outros movimentos que podem ser considerados Invenções Democráticas:

O movimento da Tecnologia Social visa a desenvolver ciência e tecnologia não para os lucros privados e sim em conjunção a anseios comunitários.

O Survivor Research é um movimento social e científico inglês em que acadêmicos que reconhecem publicamente a sua história como usuários de serviços de saúde mental apoiam-se metodologicamente nessa dupla condição para contribuir com pesquisas e propostas sobre esses serviços.