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Invenções Democráticas no Quilombo no Brésil en Mouvements: carta do Filósofo Michel Paty

Michel Paty
Directeur de recherche émérite au CNRS
Paris, le 3 août 2011
à David Calderoni
São Paulo

Caro David

Foi com grande prazer que eu participei, a seu convite, do evento “projeção do documentário Invenções Democráticas no Quilombo e debate”, no Festival Internacional de Cinema notavelmente etnográfico, Brésil en mouvements, em Paris, dia 19 de junho de 2011.

A projeção do seu filme (resultado da sua pesquisa interdisciplinar, realizada com apoio da Fapesp), “Invenções Democráticas no Quilombo”, foi um grande momento. Já tinha visto uma primeira versão, que você mostrou na sua casa em São Paulo, o ano passado, à mim e a minha esposa em presença da sua, numa projeção privada. Desta vez foi uma projeção oficial da última e definitiva versão, após seleção, no festival internacional “Brésil en mouvements”, em Paris. O publico era bastante numeroso (inusualmente, para filmes de pesquisa), e a assitência interagiu dinamicamente no momento do debate, com observações que, para algumas delas, podem ser consideradas como contribuições originais relativas a este campo exploratório de investigação, nas fronteiras mutuais da etnologia, da sociologia, da história, da psicologia (considerando a sua perspectiva inicial de pesquisa), e do patrimônio enquanto memória oral. (Penso em particular na intervenção de um pesquisador de ciências humanas e sociais do Senegal, que foi muito esclarecedora, lembrando em particular semelhanças e heranças culturais).

Neste sentido, seu filme ficará no meu ver como um marco na apropriação pelo povo brasileiro da sua história recente diferenciada, típica (na minha modesta opinião) do gênio próprio deste povo tão querido de mim. Hei de notar também na apresentação e no debate, a extraordinaria presença da “atriz”, ou mehor, “heroina” principal do filme, a Laura de Jesus Braga, testemunhando com suas próprias palavras diretas, tão vivas, verdadeiras e tocantes. (Nos tivemos, minha mulher Maria Aparecida e eu, a honra e o prazer de conversar com ela depois da projeção). Alias, incluindo ela como co-autora do filme realizado em DVD, você foi generoso mas também justo, e ela o merece, com toda essa inteligência e dedicação que ela desenvolveu ao longo dos anos na preservação da sua comunidade, fazendo que esta seja aceita e floresça. Ela é também um modelo de ciudadanhia no Brasil de hoje.

Da minha parte enquanto filosófo da ciência, achei particularmente significativa a sua pesquisa do punto de vista metodológico, concernindo as ciências humanas e sociais, pois sua aproximaçao toma em conta o envolvimento do pesquisador em relação ao objeto de estudo, sem por isso prejudicar e sim favorescendo a riqueza e autenticidade do conhecimento assim adquirido. (Perdimos, aqui na França, ultimamente, o grande etnólogo Georges Condominas, levado a sua vida toda por esta dimensão nos seus estudos da Asia do Sul-Este).

Por todas essas razões eu acho que a apresentação do seu trabalho numa mostra internacional como esta de Paris correspondeu a uma especie de consagração e a uma ampliação da direção de pesquisa e dos resultados obtidos.

Meus parabens, mais uma vez, caro David, para todo este conjunto de realizações (pesquisa, filme, apresentação ao público, debate) a você e a sua equipe, que inclue os “objetos de estudo”, alias bastante reflexivos – esta sendo a última observação, por enquanto, do filósofo da ciência, seu espectador convidado, quem, com um forte abraço e saudades, suscreve

Michel Paty